10/09/2024
FOTOGRAFAR
As cores avermelhadas do alvorecer, que outrora apenas indicavam que havia neblina e que era alta a probabilidade de termos um dia lindo pela frente, hoje também podem informar que a fumaça das matas que queimam sem parar nos biomas sul-americanos, pegaram carona nas mesmas correntes de ar que, muitas vezes, trazem para cá a chuva e o frio das encostas da Cordilheira do Andes. Não deixa de ser lindo. E registrar, tanto uma quanto a outra, é desafiador.
Há dias eu tento esta foto: o sol, o cipreste e o bem-te-vi.
Na verdade, há anos eu tento esta foto. O cipreste foi plantado lá por 2012, 2013, para fazer parte de uma barreira de vento que hoje protege um dos pomares de Clemenules em Pedras Rolantes.
Desde que ganhou alguma altura, as aves que voam por aqui encontraram em seus ramos mais altos um lugar legal para observar o ambiente, descansar, trocar conversas com colegas mais afastados e namorar. Tudo ao alcance de nossos olhos e ouvidos. É um espetáculo diário.
Já fiz muitas fotos deles na ponta dos ramos moles, que arcam com suas 50 gramas de peso, que balançam com a brisa e que, no fim do dia, enchem o ambiente com o suave, adocicado e inebriante aroma do cipreste português.
O cipreste não é uma árvore nativa, as que sempre preferimos, mas é perfeita como quebra-vento, uma necessidade, e a árvore do Velho Mundo ainda nos brinda com sua beleza, seu aroma e é um poleiro perfeito para os passarinhos.
Há exatos cinco anos, em 12 de setembro de 2019, fiz uma foto parecida. Aquele ano, segundo dados do WWF, também foi de recordes de queimadas na América do Sul, notadamente no Norte e no Centro-oeste do Brasil, no Peru, na Bolívia e no Paraguai, rota das correntes andinas que nos alcançam durante todo o ano, e que nesta época trazem a fumaça.
É também apenas nesta época do ano que o movimento da Terra coloca o Cipreste, por poucos minutos, na frente do sol. Acordo cedo, olho o céu, espero o sol. Se ele vier filtrado pela fumaça, pego a máquina, deixo o tripé à mão, e vou para a sacada ou para a varanda esperar o bem-te-vi, que sempre vem, mas raramente na hora que eu gostaria.
Hoje ele veio. Deu para fazer três fotogramas.
Tarcísio