06/04/2025
A luz que resta
Em um mundo que esqueceu o sol, ela permanece.
Pequena, mas imóvel. Olhar de vidro, mas alma inquieta.
Como uma boneca esquecida numa estante, seus cachos dourados brilham sob o azul frio de uma luz que não aquece — só revela.
Nas sombras sussurram segredos de um tempo enterrado, ela não fala.
Ela escuta.
E espera.
Seus braços cruzados não são de desafio, mas de contenção.
Há algo dentro dela que pulsa, algo que não cabe nesse corpo feito para parecer frágil.
Ela é o erro delicado num mundo perfeito demais para ser humano.
Criada para agradar, mas destinada a observar a ruína.
A casa caiu há muito tempo — talvez o mundo também.
Mas ela ainda está aqui.
Como um relicário de sentimentos que ninguém mais lembra como sentir.
Há silêncio, onde o tempo é só mais uma criatura escondida atrás das cortinas pesadas,
ela resiste.
Não por escolha.
Mas por ser a última testemunha de tudo o que já foi luz.