02/10/2014
OS IMPERDOÁVEIS
por José Roitberg - jornalista e pesquisador
As religiões posteriores ao judaísmo criaram mecanismos mais simples para o perdão. No Catolicismo, peca-se e vai-se ao confessionário, confessa-se (honestamente) ao padre, recebe-se uma fila de penitências a fazer e o perdão divino foi concedido por um funcionário subalterno sobre a terra, até o próximo pecado e absolvição.
O Islamismo, observando quase 700 anos de prática cristã, avançou neste aspecto e removeu a absolvição em vida. Pode-se pecar, mas deve-se morrer de forma adequada a fim de ascender ao paraíso. Assassina-se para ir corretamente ao encontro do Criador. Apesar do assassinato ser proibido, manobras teológicas o tornam tão possível quanto desejável.
O curioso é que em ambas religiões monoteístas preponderantes, somando quase 3 bilhões de pessoas, pecado e perdão são assuntos entre o indivíduo e Deus, intermediado por outro indivíduo ou a custa da vida de outro indivíduo.
No Judaísmo recalcitrante, fé de míseros 15 milhões, dos quais a imensa maioria nem tem a religiosidade que a teologia judaica prega, continuamos aferrados a crença de que somos julgados por Deus, uma vez por ano, e isso é problema dele e não nosso. Não temos a prerrogativa de fazer um acerto definitivo antes do julgamento como no Islã, nem nenhuma penitência que possamos fazer para impressionar a Deus. Lembra da oração diária afirmando, traduzido livremente, de que vou agir de forma com que Deus se orgulhe de mim? Tem muita gente que diz isso, mas que não pratica isso.
Nosso Judaísmo recalcitrante ainda nos obriga a nos desculparmos e pedirmos perdão individualmente e pessoalmente às pessoas que ofendemos e enganamos (intencionalmente ou não). Os outros monoteístas não pedem perdão às suas vítimas, apenas os judeus fazem isso. E não cabe ao ofensor ter uma garantia de que será perdoado, pois o perdão não é automático e sim prerrogativa do ofendido.
Tem gente que acha que deve "perdoar para ser perdoado", mas isso é de outra religião e não do Judaísmo. Tem gente que ainda acredita que os judeus não devem reagir, mas "dar a outra face", só que isso também é de outra religião. Ambos elementos estão introjetados na mentalidade de boa parte dos judeus, mas não nos pertencem.
Existe ainda uma postura "macha" para caramba, de pessoas que vivem e agem dentro do conceito de que "pedir perdão é demonstração de fraqueza", mas isso também não é de nossa religião judaica.
Por isso temos os imperdoáveis. Os imperdoáveis NÃO SÃO aqueles que pecam, atacam, enganam, praticam crimes, caluniam e pedem perdão.
Os imperdoáveis são aqueles que pecam, atacam, enganam, praticam crimes, caluniam e f**am intocáveis sobre seus pedestais, quiçá idolatrados por uns e outros, quiçá criando seguidores e admiradores no mundo real e virtual, julgando que os ofendidos, humilhados e tripudiados são os que devem ir pedir-lhes perdão.
Não nos faltam imperdoáveis. Olhe a sua volta.
Mas como no Judaísmo a prerrogativa final é de Deus e não dos homens, mesmo que você ache que os imperdoáveis são especif**amente bem sucedidos, a conta deles está no vermelho e belo dia destes será cobrada.
Você ainda tem uns dias para acertas suas contas com os homens. Deus agradece.
Shaná Tová, Chatimá Tová